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A escritora Marília Arnaud lançou um romance ‘Suíte de Silêncios’

Confira a entrevista concedida ao jornalista Ricardo Anísio, publicada na Revista A Semana

Ações do documento

 

- Me parece que esse seu livro tem um tom saudosista, melancólico. Essas são características também da autora?

- No ‘Suíte de Silêncios’, o passado não passa para Duína (protagonista). Afundada em sua dor, ela nega o presente e abomina o futuro (“onde não há você, onde não há nada”). É uma história triste, sem dúvida, de perdas, abandono, desesperança. Você me pergunta se sou saudosista, e eu lhe digo que, de certa forma, sim, mas também sei olhar para aqui e agora, e para frente.

 

- Suas obras têm fios de conexão umas com as outras; ou você coloca vestimentas díspares em cada uma delas?

- Embora sejam recorrentes em minha ficção temas como a precariedade das relações humanas, a solidão do homem, seu sentimento de insuficiência diante da vida, a culpa, o desejo, a morte, procuro retratar, em cada conto que escrevo, realidades e conflitos psicológicos diferentes.

 

- Sua trajetória é brilhante e a crítica tem lhe outorgado uma fartura crítica muito positiva; isso lhe confere uma responsabilidade bem maior a cada livro. Como lida com essa provável cobrança?

- Com serenidade. Acho que nasci para escrever e que, de ‘Sentimento Marginal’ até este primeiro romance, caminhei bastante, sem pressa, mas com determinação. Sempre quis fazer melhor do que faço; nunca estou inteiramente satisfeita com o meu texto. Exijo muito de mim mesma. É penoso? Sim. Mas fiz uma escolha, e vou seguir adiante sem receio, porque, honestamente, não sei o que faria da vida se não pudesse escrever.

 

- Quanto há de distância entre ‘A Menina de Cipango’ e os silêncios da maturidade, quando se trata de ficção e de realidade?

- Entre ‘A Menina de Cipango’ (contos) e ‘Suíte de Silêncios’, meu primeiro romance, passaram-se dezoito anos. Nesse meio tempo, publiquei outros livros de contos e participei de diversas coletâneas. Não tenho dúvidas de que cresci. Meus personagens tornaram-se mais complexos, a linguagem, mais rica, o texto mais denso. Isso é natural, quando se investe na carreira literária. Se o escritor não avança, se permanece com o mesmo texto, não é escritor. Então, é melhor desistir.

 

- Há quem diga que o romance é a mais braçal das literaturas. Você concorda? E como se sentiu tateando esse novo universo?

- A princípio, senti alguma dificuldade. Escrevia e não sabia no que aquilo iria dar. Tinha a pretensão de escrever um romance, mas não estava certa de que teria fôlego para ir adiante. Então, em algum momento, encontrei o tom, o ritmo certo, e a coisa começou a fluir. Creio que as dificuldades na construção de um romance não são maiores do que aquelas com que nos deparamos na de um conto; são na verdade de uma outra ordem.

 

- Como surgiu a inspiração para a escritura de ‘Suíte de silêncios’?

- Eu tinha planejado escrever um certo romance e acabei escrevendo outro. A criação é algo bem misterioso! De início, projetei uma violinista obsessiva e atormentada com a própria falta de talento, porque queria escrever sobre o valor da arte na vida das pessoas, e foi outra mulher que se impôs, com uma história de vida que eu não planejara, como se o livro se escrevesse por ele mesmo. É isso que costumo chamar de o sopro da criação. Você está ali, com uma determinada história para contar, e de repente, como se alguém soprasse no seu interior, você vai escrevendo outra.

 

- Você se vê em Duína? Para construir esse personagem foi necessário perceber alguém no espaço da sua realidade?

- Já me perguntaram isso. As referências autobiográficas são bem poucas. Cresci numa família de classe média, estudei em colégio de religiosas e sou uma musicista frustrada (tomei aulas de violão na adolescência). No mais, posso asseverar que desfrutei a vida inteira da presença afetuosa dos meus pais e que, embora tenha sofrido frustrações amorosas, nunca me entreguei à dor como Duína, nem nunca amei com a intensidade com que ela amou.

 

- O ‘Suíte de Silêncios’ pode afastar a autora definitivamente de ‘Os Campos Noturnos do Coração’? Ou seja, a romancista usurpou o trono da contista?

- Não sei. Agora mesmo estava escrevendo um novo romance e dei uma parada para escrever um conto. Creio que é possível conciliar a contista com a romancista.

 

- Seja no conto, seja no romance, percebe-se o tratamento esmerado de um ourives em seus textos. Você burila muito tempo seus escritos antes de decretá-los prontos?

- A minha escrita é muito mais livre e intuitiva do que cerebral. Durante muito tempo escrevi apenas quando sentia vontade (hoje quando há tempo). Mas isso não quer dizer mais fácil, porque depois que termino um conto, ou um capítulo do romance, passo muito tempo ali, lendo e relendo em voz alta, sentindo o ritmo, saboreando a palavra, e nisso vou eliminando os excessos, desornamentando o texto, até estar mais ou menos satisfeita, porque, de todo, não estou nunca.

 

- Todo artista tem suas fontes iluminadoras. Em quais escritores você bebeu com mais perceptível sede influenciadora?

- De certa forma, todos os bons escritores que li me influenciaram e despertaram em mim o desejo de escrever mais e melhor. Li muito Eça de Queiroz, Dostoievsky, Tolstoi, André Gide, Clarice Lispector, Marguerith Yourcenar, Virgínia Woolf, entre tantos outros. Os meus leitores costumam falar que a minha escrita lhes lembram a de Clarice, o que muito me honra, embora eu não concorde com essa afirmação.

 

- A crítica lhe assusta? Lida bem com ela? Ou consegue ignorá-la? Alguma avaliação crítica já lhe causou desconforto?

- Já me senti incomodada, sim. De imediato, achei que a pessoa tinha feito uma leitura totalmente equivocada. Mas depois compreendi que cada leitor faz a própria leitura, de acordo com sua vivência, com sua visão de mundo, e até com seu momento. A gente lê o que a gente é.

 

- E mate-me uma curiosidade: você nunca pensou em navegar pelos mares da poesia? Tem poemas guardados que um dia possam vir a pousar nas páginas de um livro?

- Não. Nunca pensei em fazer poesia. É verdade que quando criança, e até adolescente, andei rabiscando uns versinhos, mas não passei disso.

 

Ricardo Anísio

(especial para A Semana)

 

Marilia Arnaud

Marilia Arnaud nasceu em Campina Grande, graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e trabalha como analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba (TRT-PB). Publicou os seguintes livros: ‘Sentimento Marginal’ (contos), produção independente – 1987; ‘A Menina de Cipango’ (I Concurso Literário promovido pela Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba - Prêmio José Vieira de Melo), contos, 1994; ‘Os Campos Noturnos do Coração’ (concurso público promovido pela Universidade Federal da Paraíba - Prêmio Novos Autores Paraibanos), contos – 1997; e ‘O Livro dos Afetos’ (Editora 7letras - Rio de Janeiro/RJ, 2005).

Participou de algumas coletâneas de contos: ‘30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira’, 2005, (Editora Record, Rio de Janeiro/RJ); ‘Contos cruéis’ (as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea), 2006 (Geração Editorial - São Paulo/SP); ‘Quartas histórias’ (contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa), 2006, (Editora Garamond – Rio de Janeiro/RJ).